"O FADO"

Nome do autor - José Malhoa
Data de produção - Março de 1910 (após 11 meses de elaboração)
Tipo de suporte - Tela
Técnica - pintura a óleo
Formato - 1,51m x1,86m

21 de Dez de 2008

Coração atormentado

Maria Manuel Cid / Fado Menor

Coração atormentado
Por querer bem a quem não deve
Quer chorar, fica calado
Quer sorrir e não se atreve

E bate leve, tão leve
Como em dia de nevão
O vento rouba do chão
Uma bolinha de neve

Que pelo espaço descreve
Bailados com tanta vida
Até ficar derretida
Feita gotinha de orvalho
Suspensa do velho galho
Como lágrima caída

Dobraste a minha vontade
À tua com decisão
Não teimes por caridade
Não me mates coração

Ingrato, louco, ladrão
Não ames quem te não quer
Tu podes retroceder
Podes voltar à razão

Ah bendita solidão
Como a bolinha de neve
Que pode voar tão leve
Que pode rir livremente
Coração pode demente
Quer sorrir e não se atreve

Foi um bem conhecer-te

Manuel de Almeida / Fado Corrido

Foi pouca sorte encontrar-te
Mas foi um bem conhecer-te
O que perdi em achar-te
Ganhei depois em perder-te

Como vês, não estou mudada
Nem descrente, nem vencida
Nem sequer surpreendida
De um sonho mal acabado

Apenas estou conformada
Conformada de perder-te
Por isso quero esquecer-te
E ao mesmo tempo lembrar-te
Foi pouca sorte encontrar-te
Mas foi um bem conhecer-te

Se é Deus quem manda afinal
Dando almas irmãs à gente
Nossas almas certamente
Não eram o par ideal

Portanto ponto final
Mas olha, quero dizer-te
Sem pretender defender-te
Defender-te ou criticar-te
O que perdi em achar-te
Ganhei depois em perder-te

Recordando o que passei
Fico a pensar sem saber
Porque foi que te encontrei
Se tinha que te perder
Porque foi que te encontrei
Se tinha que te perder

30 de Nov de 2008

Avé Maria fadista

Letra: Gabriel de Oliveira

Avé Maria sagrada
Cheia de graça divina
Oração tão pequenina
De uma beleza elevada

Nosso Senhor é convosco
Bendita sois vós, Maria
Nasceu vosso Filho um dia
Num palheiro humilde e tosco

Entre as mulheres bendita
Bendito é o fruto, a luz
Do vosso ventre, Jesus
Amor e graça infinita

Santa Maria das Dores
Mãe de Deus, se for pecado
Tocar e cantar o fado
Rogai por nós pecadores

Nenhum fadista tem sorte
Rogai por nós Virgem Mãe
Agora, sempre e também
Na hora da nossa morte

Aqui

Mário Rainho/Reynaldo Varela
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Aquí, em cada fado há uma flor
No canteiro da alma de quem canta
Aquí cada guitarra embala a dor
Quando à noite a saudade se levanta

Aqui, cada poema é gota de água
Que às vezes mata a sede, à solidão
Aquí cada cigarro engana a mágoa
E perfuma a tristeza de ilusão

Aquí, toda a distância do passado
Senta-se à minha mesa de mansinho
Aquí, as minhas veias bebem fado
Que nasce em cada canjirão de vinho

Aquí, sinto a coragem de ser eu
Ao rir do meu passado fatalista
Cantando com a voz que Deus me deu
Aquí de corpo e alma sou fadista

Aquela Rua

Linhares Barbosa/Jaime Santos

Não me fales dessa rua
A rua que para mim
Foi a mais linda ainda

Sim prefiro que te cales
Fala-me das horas de hoje
No passado não me fales

Nesse tempo de quimera eu era
Como simples açucena pequena
Pura como a luz da lua
Era a menina bonita
Do princípio ao fim da rua

Bibe azul aos quadradinhos,
Fitas e laços de ir para a escola
Hoje sigo outros caminhos
Fiz dos teus braços uma gaiola

Canções alegres que eu tinha
Que eram da moda só sei cantar
Olha a triste viuvinha
Que anda na roda e anda a chorar

Era irmã daquela fonte, defronte
Aprendi a tagarela com ela
Tudo na vida mudou
Porque um dia tu passaste
Passaste e a fonte secou

Meu cantarinho de barro, bizarro
Fosse lá pelo que fosse, quebrou-se
Passaste a chamar-me tua
Desde então não mais pisei
As pedras daquela rua

Antigamente

Frederico de Brito/Julio Proença
(Fado Modesto)

Antigamente
Era coito a Mouraria
Daquela gente
Condenada à revelia
E o fado ameno
Canção das mais portuguesas
Era o veneno
P’ra lhes matar as tristezas

E a Mouraria
Mãe do fado doutras eras
Que foi ninho da Severas
Que foi bairro turbulento
Perdeu agora
Todo o aspecto de galdéria
Está mais limpa, está mais séria
Mais fadista cem por cento

Adeus tipóias
Com pilecas e guiseiras
Adeus rambóias
E cafés de camareiras
Nada mais resta
Da moirama que deu brado
Do que a funesta
Lembrança do seu passado

E a Mouraria
Tem perdido em tempos idos
A nobreza dos sentidos
e o pudor, de uma virtude
Salvou ainda
Toda a graça que ela tinha
Agarrada à capelinha
Da Senhora da Saúde

Agora choro à vontade

Eugénio Pepe/Guilherme Pereira da Rosa


Agora choro à vontade
Falo da minha saudade
Em cada fado que canto


Em cada um meu passado
É condão que tem o fado
Dá largas ao nosso pranto

Meu amor perdido à toa
Vai num fado de Lisboa
E eu, a quem o fado não ri
Vou chorando em cada fado
Um grande amor que perdi


A saudade anda comigo
Se já não ando contigo
Tu não sais da minha frente


Nas letras que canto ao fado
A saudade do passado
Onde tu andas presente

Fado que o meu peito entoa
Vai contigo por Lisboa
E eu, a quem o fado não ri
Vou chorando em cada fado
Um grande amor que perdi